segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A TRISTEZA PERMITIDA


Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz?
Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?
Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém.
Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo. Telefone já para o seu psiquiatra.
A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.
“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música.
Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria.
Daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.
(Martha Medeiros)
Mais um texto PERFEITO dela...

6 comentários:

Thaíse Lima disse...

Devemos realmente nos permitir, mesmo se fomos tristes ou felizes, e não esquecendo que a tristeza é inevitavel. Muito bonito o texto, me indentifiquei muito com ele, meu dia hj foi tristinho e não aguentava ninguem me perguntando porque, na verdade não tinha porque!
Adoreei seu blog. To te seguingo.
Bjus
Passa lá no meu depois :)

Priscila disse...

P-E-R-F-E-I-T-O!!!!!!!!

expresso moda disse...

O texto é lindo,bem escrito,lúcido,Marta é craque!Não sou "alegrinho"!Me permito ser triste,sem ser piegas ou vitíma...eu acho que consigo!Nem sempre!

bjs,Jaque!

M.Silva disse...

Puxa, isto disse tudo!! Muitas vezes me sinto assim... na obrigaçao de aparentar estar feliz; 24 horas por dia, 7 dias da semana!! A tristeza tem seu lugar. Mesmo porque sem ela nao saberiamos aproveitar a alegria, nao e mesmo?:-)

Shimmering Ladies disse...

Realmente é um texto muito bom e fala muito da recusa que o ser humano tem de sofrer, de curtir seus momentos de bode... Eu mesma não permito ficar mais do que 1 dia triste... No dia seguinte, bola pra frente...

Pq sofrer é até normal, MAS NINGUÉM QUER!!!

Parabéns pelo blog!! Virei aqui sempre! Beijinhos.

Cris Goiatá disse...

Cruzes...parece que ela anda dentro da gente pra colocar tão sabiamente as palavras, me arrepio de ler, me emociono porque sei lá Jaque, nunca precisei de remédios para curar nenhum tipo de sentimento que chega e não sei de onde vem, somente me permito sentir sem fazer aquele drama mexicano, afinal tudo é permitido se vc for humano, as vezes não queremos sorrir, e daí???Se choramos por vermos coisas lindas ou escutramos uma musica linda que mexe com a gente, e daí?Faz parte...os dias não podem ser todos iguais...não devem pq a rotina existe mas não precisa ser chata. E tristeza não é bobeira, só quem sente sabe...
Poxa, vou comentar seu blog todo desde o dia que minha net parou hahahaah!!Vc é demais!!Adoro essa sua casa!!Tem tudo a ver comigo já te disse?