sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

FELIZ ANO NOVO


"Chico Buarque escreveu uma música para sua filha recém nascida, expressando, no finalzinho, seu melhor desejo: ..."e que você seja da alegria sempre uma aprendiz..."Haverá coisa maior que se possa desejar?
Nietzche, filósofo estranho, que não se envergonhava de tratar de assunto com tão pouca respeitabilidade acadêmica (em nossas escolas, alegria não é tópico que apareça em currículo algum) dizia que nosso único pecado original é a falta de alegria.Alegria é o que acontece com o corpo quando ele se encontra com aquilo que seu coração deseja. Coisa simples e efêmera...

Brecht, em um momento de extrema depressão escreveu um poema para lembrar-se das alegrias a seu redor a que deu o nome de "Felicidades". E é bom que seja assim: felicidades, no plural. Porque ela não é uma, afinal. São múltiplas, pequenas e passageiras. Não me lembro de suas palavras, mas era algo parecido com isso: "O bom calor das cobertas, na preguiça do acordar. Um chuveiro quente. Café com leite, pão com manteiga. O bem-te-vi costumeiro sobre o galho da árvore (e as rolinhas). Os ipês florindo. Um sapato velho. A caminhada pelas ruas, manhã cedinho. Este cantar de grilo..." (que me faz lembrar um haicai de Bashô). Ler Bashô, Guimarães Rosa, encontrar o livro que se julgava perdido...e você poderá continuar compondo seu próprio poema, fazendo um rol das suas felicidades...

Acontece que somos por demais estúpidos e pensamos que ela é uma coisa grande e barulhenta. Ao contrário, é discreta, silenciosa e frágil como uma bolha de sabão. Vai-se rápido, mas sempre se podem assoprar outras.Felicidade é coisa de criança, é voltar a ser criança. Quem o diz é a psicanálise e uma antiga tradição religiosa que chegou ao ponto de afirmar que a maior seriedade de Deus acontece quando Ele vira menino. Há um poema de Fernando Pessoa – como Alberto Caieiro – sobre o deus-menino que é preciso ler.
As crianças sabem muito bem que o propósito da vida é o prazer.

Santo Agostinho, de ortodoxia inquestionável, dizia que as coisas da vida se dividem em duas classes: coisas para serem usadas e coisas para serem usufruídas. As coisas para serem usadas são aquelas que não são fim em si mesmo, como uma panela, um violão, um serrote. Bom mesmo não é a panela, mas a comida que se cozinha nela; comida é o objeto de fruição, um pouquinho de felicidade. Bom mesmo não é o violão, mas a música que se toca nele, pois a música é alegria, objeto de fruição. E bom mesmo não é o serrote, mas a casinha de boneca que se faz com ele e faz os olhos da menina brilhar; felicidade são os olhos da menina...Digo que este é o objetivo da vida: prazer! Haverá algo melhor? O trabalho? Mas o objetivo do trabalho é o jardim que se planta, ou a casa que se constrói ou o livro que se escreve... A revolução social? Mas para que é que se fazem as revoluções? Não será, por acaso, para por fim às ferramentas de sofrimento e exploração, a construção do paraíso para que assim as pessoas possam ser livres para usufruir o jardim?Neste novo século muitos falam em coisas do amor, mas não devemos acreditar, pois a linguagem deles não foi feita para revelar, mas para esconder. Acontece como em uma pescaria: a coisa do amor é só a isca que se coloca no anzol para que o peixe seja fisgado e posteriormente transformado em peixada. O importante é a práxis do amor, que parece ter sido exilada de nossas vidas por um acordo tácito, restando apenas o discurso vazio, guincho mal resolvido da memória de um canto de criança. Isso tudo pode parecer uma explicação muito longa, mas pode também ser uma grande reflexão para o próximo ano, ou para todos os dias: meditarmos por onde anda a nossa procura por "felicidades", para sermos da alegria eternos aprendizes...FELIZ ANO NOVO!

Amei esse texto que encontrei nos meus arquivos. Busquei mas não consegui descobrir de quem é...de qualquer forma resolvi postar pelo conteúdo que fecha com o que estamos vivendo...esse final de ano maluco, cheio de coisas, eventos, e também como forma de me desculpar pela ausência...TÔ CORRENDO, FELIZ, PENSO EM VOCÊS, MAS NÃO CONSIGO PARAR...
Que possamos manter a criança dentro de cada um de nós, para que a busca do prazer nunca acabe....SEJAMOS FELIZES, CADA UM DO SEU JEITINHO...

Beijos, um Feliz Natal e Feliz Ano Novo!

Um comentário:

Marcia Silva disse...

Adorei!! Aqueceu o coraçao!!